Alguns livros, mesmo os não tão bons, têm partes que, por motivos diversos,

nos tocam mais profundamente. Esse blog é para colocar essa parte à parte.

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quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Compreensão x materialismo

"Existem, naturalmente, muitas pessoas que não se julgam materialistas e que, mesmo assim, consideram a conceituação racional a única espécie de compreensão possível. Tais indivíduos podem professar cosmovisões idealistas ou até mesmo espiritualistas, mas no fundo da alma sua atitude é materialista, já que o intelecto não deixa de ser o instrumento para compreender o âmbito material.
Um trecho do excelente livro pedagógico de Jean Paul, (...), ilustrará melhor a natureza mais profunda do ato de compreender. (...) O trecho que nos interessa aqui é o seguinte:
Não tenhais medo da incompreensibilidade, até de sentenças inteiras! Vossa fisionomia, a entonação de vossa voz e o intuitivo desejo dos discípulos de compreender deixarão clara uma metade, e o tempo fará com que eles acabem compreeendendo a segunda. Em crianças como em chineses ou outros povos de outras línguas, a entonação já é a metade da fala; lembrai-vos de que as crianças compreendem a língua antes da falá-la, como acontece conosco em relação ao grego ou qualquer outra língua. "
Steiner, Rudolf. A educação da criança: segundo a ciência espiritual. 5 ed. São Paulo: Antroposófica, 2012.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Linguagem

"Todas as nossas línguas são frutos da arte. Durante muito tempo. Durante muito tempo se procurou saber se havia uma língua natural e comum a todos os homens. Sem dúvida, existe uma: é a que as crianças falam antes de saber falar. Não é uma língua articulada, mas é acentuada, sonora e inteligível.
(...)
À linguagem da voz junta-se a do gesto, não menos enérgica. Esse gesto não está nas débeis mãos das crianças, está em seus rostos. É espantoso como essas fisionomias que mal se formaram já têm expressão. Seus traços mudam de uma hora para outra com rapidez inconcebível; neles vedes o sorriso, o desejo, o terror nasceraem e passarem como relâmpagos e a cada vez credes ver um novo rosto. Certamente elas têm os músculos da face mais móveis do que nós. (...)
A criança sente as suas necessidades e, não podendo satisfazê-las, implora o socorro de alguém através dos gritos: se tem fome ou sede, chora; se sente muito frio ou muito calor, chora; se precisa de movimento, mas a mantêm em repouso, chora; se quer dormir, mas a agitam, chora. Quanto menos dispôe de sua maneira de ser, mais ela exige que a mudem. Só tem uma linguagem, porque só tem por assim dizer, um tipo de mal-estar; na imperfeição de seus órgãos, não distingue suas diferentes impressões. Todos os males formam para ela uma sensação de dor.
Desse choro, que acreditaríamos ser tão pouco digno de atenção, nasce a primeira relação do homem com tudo o que o cerca. Aqui se forja o primeiro elo da longa cadeia de que é formada a ordem social".
Rousseau, Jean-Jacques. Emílio, ou, Da educação. 3 ed. Martins Fontes: São Paulo, 2004. p. 53-54.

Sobre a educação das crianças 2

"Ela [a criança] seria mais bem educada por um pai judicioso e limitado do que pelo mais hábil professor do mundo, pois o zelo suprirá melhor o talento do que o talento ao zelo".
Rousseau, Jean-Jacques. Emílio, ou, Da educação. 3 ed. Martins Fontes: São Paulo, 2004. p. 26.

Sobre a educação das crianças

"Não se trata de ensiná-la a suportar as dificuldades, mas de exercitá-la para senti-las. Só se pensa em conservar o filho; isto não é o suficiente; é preciso ensiná-lo a se conservar enquanto homem, a suportar os golpes de sorte, a desafiar a opulência e a miséria (...)".
Rousseau, Jean-Jacques. Emílio, ou, Da educação. 3 ed. Martins Fontes: São Paulo, 2004. p. 16