Alguns livros, mesmo os não tão bons, têm partes que, por motivos diversos,

nos tocam mais profundamente. Esse blog é para colocar essa parte à parte.

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sábado, 24 de setembro de 2011

Identificação x imitação

"Itard estava convicto - como ainda hoje a psicologia e, portanto, também a pedagogia - de que se aprende a falar graças à imitação. Esta garante a duplicação da fala modelo do adulto, bem como o fechamento do universo discursivo. No entanto, aí onde a imitação entranha a duplicação do mesmo, Freud colocou em operação da identificação e, portanto, o desdobramento da diferença. [...]
[...] Enquanto a imitação não pressupõe perda alguma, a identificação não é sem perda. Ela entranha uma diferença. A criança conquista um lugar, mas algo se perde, pois o lugar não é exatamente aquele reservado no fantasma adulto. Isso que se perde é um pouco de gozo [...] que escorrega entre o pequeno sujeito e o Outro. Se assim não fosse, a criança ficaria condenada à duplicação da mensagem adulta, ou a repetir em eco o seu próprio nome, isto é, a se chamar em terceira pessoa, reduplicando, assim, o seu nome 'tomado' do Outro."
Lajonquière, Leandro de. Figuras do infantil: a psicanálise na vida cotidiana com as crianças. Editora Vozes: Rio de Janeiro, 2010. p. 159-160.

Educação

"[...] para uma criança vir a ter a cabeça no lugar o adulto tem que estar disposto, vez ou outra, a perder a sua, uma vez que a educação sempre cobra seu preço."
Lajonquière, Leandro de. Figuras do infantil: a psicanálise na vida cotidiana com as crianças. Editora Vozes: Rio de Janeiro, 2010. p. 152.

Tornar-se mãe

"O dom do produto de suas entranhas ao homem implica a metáfora de um pai: lança esse homem na experiência de usufruir do lugar de pai da criatura. O dom da mãe/mulher ao homem produz o pai. Isto é importante, pois se trata que a mulher recalque a espera de um filho de seu próprio pai - reparador do narcisismo infantil desgarrado pelo confronto com a diferença sexual - e em seu lugar consinta doar um filho a um homem marcado pela impossibilidade de ter o falo. Com esse gesto, uma mulher feita mãe reconhece em si mesma e no homem a castração, ou seja, aceita inconscientemente que é impossível ter o Falo, quer dizer, que a chave do desejo está, bem como sempre esteve, perdida. [...]
A doação do produto das entranhas maternas por uma mãe/mulher possibilita precisamente que ela habite a mesmíssima disjunção entre a mãe e uma mulher. A não renúncia ao produto de suas entranhas, o não reconhecimento que o filho seja do pai, apaga a disjunção, torna equivalentes a mãe à Mulher, na esteira da clássica interpretação minimalista do raciocínio freudiano: o querer da mulher encontra resposta no ser simplesmente mãe (de um bebê dado pelo seu marido em substituição do pênis outrora esperando do pai)."
Lajonquière, Leandro de. Figuras do infantil: a psicanálise na vida cotidiana com as crianças. Editora Vozes: Rio de Janeiro, 2010. p. 113-114.

Humanidade

"A cria sapiens nasce dotada do reflexo de sucção, dentre outros. Condição necessária para poder mamar, porém insuficiente, pois é indispensável que haja uma mulher que a tome nos braços e lhe ofereça mamar, assim como também se ofereça 'em' e 'com' seu seio ao choro do recém-chegado. [...] A disponibilidade do reflexo de sucção, com toda a fragilidade que lhe é inerente, demonstra claramente que a sorte da humanidade está lançada num além do organismo. A humanidade da cria está em causa no desejo que sujeita uma mãe."
Lajonquière, Leandro de. Figuras do infantil: a psicanálise na vida cotidiana com as crianças. Editora Vozes: Rio de Janeiro, 2010. p. 101.

Mãe x mulher

"No entanto, há 'algo' além de toda praticidade possível, de toda economia do amor, que faz a diferença. Trata-se do desejo que faz de toda mulher de plantão uma mãe não toda e, vice-versa, de toda mãe uma mulher não toda. [...] Ambos [homem e mulher] experimentam um desencontro nos registros do gozo e do desejo que a chegada do bebê recoloca, produzindo a cisão entre, por um lado, uma mulher e, por outro, a mãe. Justamente, com essa cisão é que mãe terá que se haver a cada vez que se ocupe de 'seu' produto."
Lajonquière, Leandro de. Figuras do infantil: a psicanálise na vida cotidiana com as crianças. Editora Vozes: Rio de Janeiro, 2010. p. 98.

Pai

"O pai dotado de falo separa imaginariamente a criança da mãe, porém não por isso cumpre ainda a sua função. O pai deve acabar se revelando também castrado, isto é, deve ainda despontar no horizonte a idéia inconsciente de que o pai também renunciou ao incesto para que, assim, por sua vez, a cria sapiens possa vir a se desgrudar do casal parental e dar lugar a uma outra família, passando pelo crivo não familiar do social."
Lajonquière, Leandro de. Figuras do infantil: a psicanálise na vida cotidiana com as crianças. Editora Vozes: Rio de Janeiro, 2010. p. 90.

Fala humana

"Os animais não falam, entretanto, isso não os impede de se comunicarem com maior ou menor desenvoltura graças a uma linguagem sempre consciente. Vale a pena lembrar aqui os estudos do etologista, prêmio Nobel de Fisiologia em 1976, Karl Von Frisch, sobre a maneira das abelhas se comunicarem entre si [...]. A abelha que identificou a floreira com néctar retorna à colmeia e realiza uma dança composta de rodeios verticais e horizontais para informar a direção e o sentido, a respeito da luz solar, nos quais as outras devem voar. Porém, a engenhosidade da linguagem das abelhas só serve para veicular essa informação e, mais ainda, só por aquela abelha que tenha de fato localizado o néctar. As abelhas só veiculam informações que elas mesmas obtiveram na viagem de reconhecimento. Em suma: elas não fofocam. Que assim seja isso nada diz da retidão moral do ser abelhístico, mas apenas que a linguagem rodada uma e outra vez na dança não permite dizer meias verdades, ou seja, ela é consistente, cerrada.
[...]
O médico e psicanalista Julio Moreno [...] tece considerações interessantes sobre o que ele chama humano do humano. Aquilo que nos caracteriza como humanos seria a capacidade de introduzirmos mudanças na forma de vida. Essa variação estaria motivada pelo fato de sermos capazes - também os únicos - de tomar contato com a 'inconsistência evolutiva'. [...] No entanto, 40 mil anos atrás sobreveio um acontecimento do qual não se podem predicar as suas condições de emergência. Os hominídeos Homo Sapiens, já existentes e vizinhos dos outros [Homo Erectus e o Neandertal] há 160.000 anos, experimentaram um 'grande salto' ou 'explosão criativa' não acompanhado por nenhuma mudança genômica. A partir desse momento, o Homo Sapiens seguiu um caminho bifurcado, passando a ser o único capaz de repetir uma informação com exatidão, bem como o único a padecer em termos aristotélicos de 'repugnância lógica'.
Nosso autor não diz que 'o grande salto' na dita evolução da humanidade, formulado pelo biogeógrafo norte-americano Jared Diamond, seja o da emergência mesma do campo da palavra e da linguagem ou, se preferimos, da função significante. No entanto, é precisamente este quem faz do homem o único ser incapaz de duplicar sem diferença o conteúdo informal de uma mensagem. Por sinal, é isso mesmo que as crianças tanto celebram com risos quando sentadas numa roda brincam de 'telefone sem fio'."
Lajonquière, Leandro de. Figuras do infantil: a psicanálise na vida cotidiana com as crianças. Editora Vozes: Rio de Janeiro, 2010. p. 86-87.

Religião

"Dessa forma, embora seja inevitável se sustentar na vida graças a algumas ilusórias esperanças, nada impede o homem de saber inconscientemente que as ilusões são isso mesmo, ou seja, a marca do desamparo existencial e, em absoluto, indícios de nenhuma transcendência. Quando uma ilusão sabe-se ilusão, então, fica resguardada a diferença que anima o registro simbólico e que não é outra que a fenda mesma do desejo."
Lajonquière, Leandro de. Figuras do infantil: a psicanálise na vida cotidiana com as crianças. Editora Vozes: Rio de Janeiro, 2010. p. 60.

Psicanálise e seu fundador

"Porém, por um lado, Freud nada descobre, pois nada há por baixo de coberta alguma. Ele, simplesmente, renuncia à inercial reprodução da estratégia hegemônica de silêncio e naturalização e, assim, passa a desconstruir a operação discursiva produtora de sintomas no interior da única realidade que conta para nós 'humanos', aquela mesma do discurso, em que a experiência da palavra é possível."
Lajonquière, Leandro de. Figuras do infantil: a psicanálise na vida cotidiana com as crianças. Editora Vozes: Rio de Janeiro, 2010. p. 43-44.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Identidade

"Para Lacan, todas as identidades são equivocadas, no sentido de serem superficiais, parciais. Nós as usamos para funcionar no mundo, mas precisamos sempre lembrar-nos a que preço. A questão não é ficar sem nome, rejeitar a pergunta 'Quem sou eu?', mas dar continuidade à conversa sobre a identidade. É esse o trabalho da psicoterapia: aprender a assumir uma identidade e a questioná-la. Esse é um dos principais modos pelos quais falar ajuda".
Luepnitz, Deborah Anna. Os porcos-espinhos de Schopenhauer: a intimidade e seus dilemas. José Olympio: Rio de Janeiro, 2006. p. 190.

Registro do simbólico - Lacan

"Antes mesmo de falarmos, já falam de nós. Antes de sermos amados e segurados no colo da mãe e de outras pessoas, antes do nascimento e, às vezes, anos antes de sermos concebidos, já fomos objeto da fala. Em algumas famílias, espera-se - ou teme-se - a chegada de um filho ou uma filha desde longa data. Noutras, uma criança pode ser concebida como substituta de um bebê ou um parente morto. Ricos e pobres, doentes e sadios, os pais imaginam toda sorte de coisas para seus filhos. Essas expectativas - juntamente com o discurso cultural sobre o valor dos filhos masculinos e femininos, nascidos dentro e fora do casamento, de pais jovens e velhos, heterossexuais e homossexuais - não podem deixar de afetar a subjetividade dos filhos, sua maneira de dizer 'eu sou'. Às vezes, tudo o que a pessoa sabe sobre essa história complexa de ser objeto da fala é seu nome e quem é seu xará. Os nomes, que nos são dados com um gesto ilusioriamente simples, são recheados de esperança, rememoração e medo".
Luepnitz, Deborah Anna. Os porcos-espinhos de Schopenhauer: a intimidade e seus dilemas. José Olympio: Rio de Janeiro, 2006. p. 188.

Citação de uma observação da romancista Fay Weldon

"A maior vantagem de não ter filhos deve ser a possibilidade de continuar acreditando que se é uma boa pessoa. Depois de ter filhos, a gente compreende como começam as guerras".
Luepnitz, Deborah Anna. Os porcos-espinhos de Schopenhauer: a intimidade e seus dilemas. José Olympio: Rio de Janeiro, 2006. p. 15

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Linguagem

"Todas as nossas línguas são frutos da arte. Durante muito tempo. Durante muito tempo se procurou saber se havia uma língua natural e comum a todos os homens. Sem dúvida, existe uma: é a que as crianças falam antes de saber falar. Não é uma língua articulada, mas é acentuada, sonora e inteligível.
(...)
À linguagem da voz junta-se a do gesto, não menos enérgica. Esse gesto não está nas débeis mãos das crianças, está em seus rostos. É espantoso como essas fisionomias que mal se formaram já têm expressão. Seus traços mudam de uma hora para outra com rapidez inconcebível; neles vedes o sorriso, o desejo, o terror nasceraem e passarem como relâmpagos e a cada vez credes ver um novo rosto. Certamente elas têm os músculos da face mais móveis do que nós. (...)
A criança sente as suas necessidades e, não podendo satisfazê-las, implora o socorro de alguém através dos gritos: se tem fome ou sede, chora; se sente muito frio ou muito calor, chora; se precisa de movimento, mas a mantêm em repouso, chora; se quer dormir, mas a agitam, chora. Quanto menos dispôe de sua maneira de ser, mais ela exige que a mudem. Só tem uma linguagem, porque só tem por assim dizer, um tipo de mal-estar; na imperfeição de seus órgãos, não distingue suas diferentes impressões. Todos os males formam para ela uma sensação de dor.
Desse choro, que acreditaríamos ser tão pouco digno de atenção, nasce a primeira relação do homem com tudo o que o cerca. Aqui se forja o primeiro elo da longa cadeia de que é formada a ordem social".
Rousseau, Jean-Jacques. Emílio, ou, Da educação. 3 ed. Martins Fontes: São Paulo, 2004. p. 53-54.

Sobre a educação das crianças 2

"Ela [a criança] seria mais bem educada por um pai judicioso e limitado do que pelo mais hábil professor do mundo, pois o zelo suprirá melhor o talento do que o talento ao zelo".
Rousseau, Jean-Jacques. Emílio, ou, Da educação. 3 ed. Martins Fontes: São Paulo, 2004. p. 26.

Sobre a educação das crianças

"Não se trata de ensiná-la a suportar as dificuldades, mas de exercitá-la para senti-las. Só se pensa em conservar o filho; isto não é o suficiente; é preciso ensiná-lo a se conservar enquanto homem, a suportar os golpes de sorte, a desafiar a opulência e a miséria (...)".
Rousseau, Jean-Jacques. Emílio, ou, Da educação. 3 ed. Martins Fontes: São Paulo, 2004. p. 16